Em uma noite épica e inesquecível, o Palmeiras demonstrou resiliência e maestria tática para reverter uma desvantagem considerável e garantir sua vaga na final da Copa Libertadores da América. A vitória por 4 a 0 sobre a LDU, no Allianz Parque, não foi apenas um placar expressivo, mas um testemunho da capacidade de superação e da inteligência de um grupo que acreditou até o fim. O técnico Abel Ferreira, figura central nessa conquista, compartilhou em detalhes a pressão, as estratégias e as emoções que marcaram essa jornada memorável, revelando os bastidores de uma virada que entra para a história do clube.
A Mente do Treinador: Preparação e Estratégia em Detalhes
A jornada para reverter o placar adverso de 3 a 0 sofrido no Equador começou ainda na segunda-feira, quando Abel Ferreira iniciou um minucioso processo de planejamento. Longe de ser um torcedor passivo, o comandante alviverde mergulhou em análises profundas, utilizando um bloco de notas para registrar cada ideia e possibilidade tática. Na terça-feira, essas reflexões foram compartilhadas com sua comissão técnica, em um diálogo intenso e colaborativo. “Pá, não podemos jogar da mesma maneira. Temos que surpreender, eles estão à espera que a gente vá jogar desta maneira. O que vocês acham disso?”, questionava Abel, provocando o debate e buscando a melhor forma de desmantelar o sistema defensivo da LDU. A proposta era clara: encontrar maneiras de neutralizar a linha de cinco defensores e a concentração de três meio-campistas adversários. Essa abordagem estratégica, que visava surpreender e explorar brechas, foi cuidadosamente elaborada para garantir que o time estivesse preparado para diferentes cenários da partida.
O técnico português, conhecido por sua intensidade e dedicação, demonstrou uma preocupação ímpar com o bem-estar mental de sua equipe. Sua esposa, Ana, percebeu o nervosismo, mas também a confiança que emanava dele. “Estás nervoso?”, ela perguntou. “Estou, mas confiante que nós estamos preparados”, respondeu Abel. A previsão dela, no entanto, adicionou uma camada de realismo à expectativa: “Vai ser mais uma noite de sofrimento.” Essa antecipação da dificuldade iminente serviu como combustível para a preparação, evidenciando a consciência de que cada detalhe seria crucial. Abel chegou a declinar um convite para o Prêmio Bandeirante 2025, concedido pelo Rotary Club de São Paulo, na noite de quarta-feira. A decisão foi tomada com um propósito específico: estar “tranquilo, calmo, fresco” para o decisivo confronto. A necessidade de estar em seu melhor estado mental para transmitir energia e confiança aos jogadores era primordial, em um ciclo onde o treinador também precisava de seu próprio suporte emocional.
O Confronto no Allianz Parque: Táticas em Campo e o Controle Emocional
Durante os mais de 90 minutos de apreensão no Allianz Parque, Abel Ferreira se manteve em constante movimento, raramente se sentando no banco de reservas. Seu foco era absoluto, com breves momentos de pausa apenas para discutir substituições e ajustes táticos com sua equipe. A maior parte do tempo o via caminhando pela área técnica, ora consultando o relógio, ora bebendo água, mas sempre atento a cada lance. A comunicação com os jogadores era feita através de gestos enérgicos e, em alguns momentos, com cobranças direcionadas à arbitragem por lances não marcados. Essa postura demonstrava a busca incessante por cada vantagem, por menor que fosse.
O controle emocional de Abel foi notável. Enquanto a torcida e os jogadores extravasavam a alegria a cada gol, o treinador mantinha uma compostura impressionante. Um dedo na testa, em um gesto que evocava a máxima “cabeça fria, coração quente”, e respirações profundas eram suas maneiras de gerenciar a adrenalina. “Acho que foi dos jogos que menos emotivo eu estive. Não podia passar essa emoção pros nossos jogadores”, explicou ele posteriormente. Essa serenidade em momentos de euforia era crucial para manter o time focado na tarefa que ainda precisava ser completada. Mesmo com o gol de pênalti de Veiga, que selou a classificação, Abel ainda demonstrava uma contenção, uma maneira de poupar a explosão final para o apito que decretaria a vitória.
O Alívio e a Emoção Desencadeada Após o Apito Final
Somente às 23h26 da quinta-feira, com o apito final que confirmava a histórica classificação, a fachada de controle de Abel Ferreira cedeu. A liberação da tensão acumulada foi palpável. “Eu simplesmente desabei. Acho que estava com uma bola dentro, tudo pressionado aqui”, confessou ele, apontando para o peito. O abraço da comissão técnica, o cumprimento de Giay no centro do gramado e o gesto de coração direcionado à sua esposa no camarote foram os primeiros sinais da emoção que o invadia.
Em seguida, sozinho, ele permitiu que as mãos cobrissem o rosto, e o corpo cedeu aos joelhos, em um desabafo visível de alívio. O abraço de funcionários e jogadores, que compartilhavam da mesma euforia, selou o momento. Contudo, mesmo em meio à celebração, a reflexão de Abel era profunda: “Eu ainda não consigo desfrutar das vitórias. Penso que todos os dias tenho que provar que mereço estar onde estou. É um sentimento de alívio.” A saudade da filha, que estava em Portugal, adicionou uma camada de melancolia à alegria, trazendo à tona a importância da família como pilar de sustentação. As lágrimas, que ele admitiu não gostar de mostrar, eram um reflexo da intensa pressão e da dedicação empreendida. “Mas é isso mesmo, um alívio. Isso que eu tenho pra vos dizer: é um alívio”, concluiu, transmitindo a magnitude da conquista e o peso que foi retirado de seus ombros.
O Legado de uma Virada Inédita
A noite mágica no Allianz Parque não foi apenas um jogo de futebol, mas a materialização de um plano meticuloso, de uma crença inabalável e de um controle emocional exemplar. A virada por 4 a 0 sobre a LDU, que garantiu ao Palmeiras a sua sétima vaga em finais de Libertadores, reforça a trajetória de sucesso do clube sob o comando de Abel Ferreira. A capacidade de superar adversidades, especialmente após um resultado desfavorável no primeiro jogo, demonstra a força mental e a qualidade tática da equipe. O treinador, que em agosto havia enfrentado críticas e momentos de dúvida, provou mais uma vez seu valor, transformando a pressão em motivação e alcançando um feito notável. Essa conquista serve como inspiração e como mais um capítulo glorioso na rica história do Palmeiras.

Escritor especializado em cobrir notícias sobre o mundo do futebol. Apaixonado por contar as histórias por trás dos jogos e dos jogadores







